Foi a primeira vez que vi o mar. De perto é muito diferente das figuras dos livros empoeirados de uma pequena biblioteca do meu pai, ele era um apaixonado por histórias, das mais emocionantes, com drama, suspense, mocinho e bandido, amor dessas de nos deixar ansiosos pra saber o final, ate as mais sem graça, que eu não entendia nada, até um dia saber que eram metáforas, que a intenção era ter uma moral no final.
Dos sete filhos, eu fui o único que herdou essa paixão pela leitura.
Tem coisas que as palavras não conseguem decifrar um delas é a brisa do mar, forte e suave ao mesmo tempo, é, nenhuma, palavra explica. Foi a primeira vez que senti a areia molhada nos meus pés ainda pequenos, uma experiência maravilhosa é essa de conhecer e desfrutar coisas novas, mesmo sem conseguir traduzir em palavras.
O intrigante é que hoje depois de tantas idas à praia, continuo adorando a maresia, mas sempre que me lembro do mar, me vem à cabeça uma das figuras com cheiro de livro velho que um dia vi em algum dos livros do meu pai, um mar escuro e sombrio.
Um homem apaixonado por historias e pela família, era um típico pai de punho forte, que por muito tempo foi como um herói pra mim, desses com capa e super poderes. Quando sentava em sua poltrona de couro, rústica e velha no canto da sala de visitas. Ninguém podia sentar nela, eu sempre gostei de me sentar era no chão, par ouvir uma de suas historias, nem sempre entendia, mas minhas curtas respostas, eram o suficiente.
- Sempre que você ler uma história, uma boa historia, de estilo, idéias, simples e complexa, ainda assim vai sentir falta de alguma coisa. Sabe o quê?
- Não – nem prestou atenção no que eu falei; e já foi respondendo.
- O pecado. Toda história tem que ter algum pecado. Porque é o pecado que move o mundo. É o que nos salva e nos condena. Concorda?
- Concordo. – eu ainda iria refletir sobre aquilo, mas não tinha a mínima idéia do que ele falava, mesmo assim continuava o meu herói.
Eu não tenho filhos, nunca casei, seria bom repetir esses momentos, era quase um ritual para o meu pai.
Sempre muito entendido do que dizia, se meus filhos me vissem assim, também me achariam um herói.
Sou um homem um tanto solitário, trabalho em casa, não saio muito, o jornal me cobra prazos de entrega, sou escritor, colunista no momento, gosto de criar personagem, acho que me vejo em muitas das moinhas criações, talvez uma maneira de ter uma vida mais agitada e emocionante que a minha.
Quase tudo o que eu ganho é par pagar meu apartamento e minhas empregadas, uma cozinheira e uma faxineira.
- Bom dia Seu Carlos. Vai sair hoje?
- Bom dia Dona Nanci. Hoje não, tenho muito trabalho.
- Tem feira, vai querer alguma coisa especial pro almoço.
- Não, prepara qualquer coisa, gosto do que faz.
Eu não sei cozinhar é a Dona Nanci que faz tudo pra mim.
Uma parte do dinheiro que eu ganho vai para ajudar a Marta, minha mãe, como costureira ela não ganha muito, ela sente tanta falta do marido.
Com o que sobra quase sempre compro livros, por isso a faxineira, não tenho tempo nem paciência pra tirar pó de tanto livro, gosto de ler e apreciar a obra e só, um dia ainda não terei onde pisar em minha casa. Fiquei coma biblioteca do meu pai, tem muita literatura, ma a maioria são de autores filósofos. Assim que aprendia ler, percebi muitos nomes estranhos, ate achava engraçado, o que me encantava eram as figuras, poucas, mas lindas o suficiente pra sozinho, eu também criar minhas historias.
- Que imaginação esse menino tem. – dizia minha mãe.
João Sapateiro, é assim que chamam meu pai, nome simples, João, nome forte João. Era difícil chamar um herói de João Sapateiro. Por causa do meu fisco fraco e mago, sem pré chamaram no diminutivo, da infância à fase adulta. “Carlinhos, entra menino! É hora do almoço”, “e ai Carlinhos, ‘vâmo’ pro bar mais tarde?”.
Amanha vou à praia, refletir um pouco, tentar esquecer a correria e os problemas, ser saudosista, lembrar do meu pai, e naquela poltrona velha, não que pra isso eu tenha que parar pra me lembrar dele, ver a figura de um mar revolto escuro e sombrio, mesmo diante do contrário, é da figura que eu gosto, me lembra as histórias que meu pai contava.
- Dona Nanci, eu mudei de idéia. Prepara um pudim pra mim na sobremesa? – meu pai amava pudim.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
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